Ecologia trófica do biguá, Nannopterum brasilianum, em ambiente límnico e estuarino no sul do Brasil
Autor: Talita de Alcantara Carneiro Backhaus (Currículo Lattes)
Resumo
O biguá (Nannopterum brasilianum) é uma ave aquática piscívora de grande porte com hábitos alimentares flexíveis, porém os estudos prévios sobre sua dieta ocorreram em um único ambiente ao longo de sua ampla distribuição nas Américas. No primeiro capítulo desta dissertação a dieta do biguá foi comparada em um ambiente límnico, na Estação Ecológica do Taim, e estuarino na Lagoa dos Patos, ambos no sul do Brasil, através da análise de pellets (material regurgitado) e isótopos estáveis de carbono (13C) e nitrogênio (15N) no sangue e nas penas, visando abranger a assimilação da dieta em escalas temporais distintas. O índice de importância relativa presa-específico (PSIRI%) indicou que os biguás estuarinos consumiram peixes dependentes do estuário, principalmente a corvina (Micropogonias furnieri) (PSIRI% = 79,8), seguido pela tainha (Mugil spp.) e bagres (Ariidae), enquanto no ambiente límnico as espécies de água-doce foram mais importantes, principalmente os lambaris (Characidae) (PSIRI% = 61,9), seguido pelo biru (Cyphocharax voga) e pelo bagre-pintado (Pimelodus pintado). A análise de isótopos estáveis e o nicho isotópico determinado nas amostras de sangue revelaram que os principais itens alimentares consumidos em cada ambiente também foram assimilados, corroborando os dados do método convencional. Já as penas, sintetizadas durante o período pós-reprodutivo, indicaram um nicho isotópico mais amplo e maior assimilação de presas de água doce em ambos os locais, no período anterior à amostragem. Logo, além dos hábitos alimentares generalistas em nível de espécie, este estudo demonstrou que os biguás são especialistas locais, com espécies ou grupos únicos compondo a maior parte da dieta de cada ambiente, confirmando o seu hábito piscívoro e oportunista. No segundo capítulo, o muco que envolve os pellets dos biguás foi testado como uma amostra alternativa ao sangue na análise de isótopos estáveis para inferir a dieta em ambientes distintos, estuarinos e de água doce. Os valores de 13C e 15N refletiram as diferenças esperadas para cada ambiente. Ao comparar com modelos de mistura dos componentes sanguíneos, o muco foi mais similar ao soro e indicou uma janela temporal curta de assimilação da dieta devido à provável rápida renovação isotópica. Os resultados indicaram que o muco tem potencial para inferir alterações recentes na dieta, mas é necessário explorar o seu uso e determinar o fator de discriminação trófica deste material ainda pouco estudado. Desta forma, este trabalho não apenas confirmou a alta plasticidade alimentar do biguá, que possui uma dieta flexível ajustada conforme disponibilidade de presas mais abundantes em cada ambiente, mas também demonstrou que o muco é um material de fácil obtenção e minimamente invasivo que pode ser útil para monitorar a dieta recente de populações de aves e as alterações no ambiente através de análises isotópicas.