Padrões de uso de habitat e dieta de Lontra longicaudis (Olfers 1818) em arroios urbanos no sul do Brasil
Autor: Alan Lopes Mesquita (Currículo Lattes)
Resumo
A lontra-neotropical (Lontra longicaudis) é um mamífero semiaquático amplamente distribuído na América Latina e considerada importante indicadora da integridade dos ecossistemas aquáticos. Este estudo avaliou o uso do habitat e a ecologia alimentar da espécie em três arroios costeiros do município de Rio Grande, Rio Grande do Sul, submetidos a diferentes níveis de urbanização e conservação da paisagem. As amostragens foram realizadas mensalmente entre agosto de 2024 e julho de 2025 em trechos de aproximadamente 1 km dos arroios Bolaxa, Martins e das Cabeças. Foram registrados vestígios indiretos da espécie, caracterizados os micro-habitats utilizados e analisada a cobertura e o uso da terra no entorno dos cursos d'água por meio de imagens obtidas com veículo aéreo não tripulado e classificação supervisionada. A dieta foi determinada pela análise de fezes. A intensidade de uso foi estimada pela taxa de encontro de vestígios, enquanto diferenças espaciais e sazonais foram avaliadas por testes não paramétricos e análise multivariada (PERMANOVA). Foram registrados 175 vestígios, distribuídos entre o Arroio Martins (133), Arroio das Cabeças (29) e Arroio Bolaxa (13). A taxa de encontro diferiu significativamente entre os arroios, sendo maior no Arroio Martins, sem variação sazonal significativa. Os bancos de areia concentraram 95,1% dos registros, evidenciando sua importância como locais preferenciais de marcação e para a detectabilidade da espécie. A dieta foi predominantemente composta por peixes, seguida por crustáceos e aves, mantendo composição semelhante entre arroios e estações do ano. Os resultados indicam que a intensidade de uso do habitat está mais associada à disponibilidade de micro-habitats favoráveis, à conectividade da paisagem e às perturbações antrópicas do que à extensão da vegetação ripária isoladamente. Conclui-se que a conservação de L. longicaudis em paisagens costeiras antropizadas depende da manutenção da conectividade funcional dos ambientes aquáticos e da mitigação dos impactos decorrentes da urbanização.